A série Encontros O Globo, que discutiu as Contribuições da Juventude para o Debate sobre Drogas e foi promovido pelo jornal O Globo e pela organização não governamental Viva Rio, deu um passo importante para se jogar luz a uma discussão que é sempre tratada com preconceito e obscuridade em nossa sociedade.
Nas últimas décadas todas as vozes permitidas a se pronunciar sobre drogas, formando opinião entre as pessoas comuns, eram as vozes que cultuavam a repressão ao consumo e ao tráfico de drogas. Mesmo após a saída de cena dos militares a política de drogas em nosso país continuou sendo ditada pelos Estados Unidos, com sua postura repressiva. Em função disso este assunto nunca foi tratado de forma democrática, com respeito ao direito de opinião. Qualquer voz que se levantasse contra a lei de drogas em nosso país era ameaçada com a própria lei, por fazer apologia ao crime. Quando não, como nos dias atuais, se procurava desmoralizar essa voz, tachando de vagabundo, maconheiro, bandido, homossexual, etc, quem insistisse no assunto.
Além de nessa questão vermos resquícios da ditadura, observamos passivos, já há longo tempo, o retorno às práticas dos tempos do obscurantismo onde a vontade de um poder, na época o religioso, sobrepujava opções pessoais de um grande número de pessoas. Da mesma forma que no passado, impede-se que a população tenha acesso à informação sobre os avanços científicos, às ações que têm dado certo, como a política de redução de danos adotada com sucesso em alguns pontos do mundo, em relação às drogas.
Esse debate lançou luz sobre as trevas, levantando uma discussão séria para que enfim haja um contraponto ao discurso e práticas repressivas, policialescas, a uma questão puramente de saúde pública e de contexto social.
Neste momento de tanta falácia e hipocrisia é importantíssimo que as vozes que são contra a guerra gerada pela lei atual de drogas, contra o descaso como são tratados os dependentes químicos e suas famílias, e a favor de uma nova abordagem para lidar com essa questão, sejam ouvidas. Isso é democracia. Respeitar os direitos de uma minoria nem tão pequena assim, os usuários de maconha, é uma garantia ao direito de opção de vida dessas pessoas.
Da mesma forma que os opositores do regime militar foram presos, torturados e mortos, da mesma maneira que as bruxas foram queimadas nas fogueiras da inquisição, ambos pelo estilo de vida que optaram, os usuários de drogas são criminalizados, marginalizados e atirados a guetos, quando não encarcerados.
O tratamento que se dá a essas pessoas, a forma como essa lei nos é imposta – toda sociedade paga por isso – e a dificuldade de discuti-la são partes de um muro de Berlim que ainda não veio abaixo.
Durante o debate tive a honra de estar sentado ao lado do Coronel Jorge da Silva. Saber que um homem criado na caserna, onde os soldados e outros militares são treinados para não pensar e sim seguir ordens, preocupou-se em crescer culturalmente e como ser humano, foi gratificante. Esse coronel mostrou-se informado, atualizado do que acontece em nosso mundo. Ele nos deu um grande exemplo quando, através do saber acumulado, teve a humildade de mudar os valores que julgava arcaicos e assumir publicamente seu erro de avaliação, passando a lutar pela verdade, tornando-se assim um grande homem, exemplo para todos. Num país de tantos “líderes” pequenos, onde o normal para eles é o imoral, vejo que ainda dá para olhar à frente e ter esperança.
Foi com prazer que ouvi as palavras sensatas e experientes do Rubem Cesar (Viva Rio), o conteúdo libertário e ativista do Sergio Vidal (representante da UNE no CONAD) e do sociólogo Renato Cinco, além da exposição do pensamento lúcido do Tico Santa Cruz, um artista que luta e dá exemplo.
Interessante mesmo foi o conteúdo humanitário do que foi discutido. Ninguém ali estava preocupado em defender bandeiras pessoais, mas sim em defender vidas. Só aquele que não quer ver ou que está mal informado pode defender a continuação, ou ampliação, dessa política repressiva que só gera morte, corrupção e superlotação de presídios. Política essa que não ajuda em nada os dependentes químicos, só os empurra mais e mais para o fundo do poço, levando junto os usuários eventuais, aqueles que gostam de “tomar um chopinho” de vez em quando.
Esse foi o assunto debatido, a mudança de uma lei que produz resultados opostos ao motivo a que foi criada. E também tirar da esfera criminal um problema claro de saúde pública, que é a dependência química.
O caminho que se vislumbra é uma política de redução de danos, baseado na experiência de muitos países que já a aplicam e que se mostrou a metodologia mais moderna e eficaz para lidar com este problema.
Ampliar este debate, trazer informação ao público e mudar essa lei é uma necessidade premente. É preciso acabar com essa guerra em nosso país, cuidar efetiva e dignamente dos dependentes químicos e garantir a liberdade individual de opção daqueles que querem fumar seu baseado sem ter que comprar na mão de traficante, nem ser detidos e processados pelo uso. Já vimos essa novela antes: o preconceito contra minorias, contra raças, contra opções sexuais, o controle ideológico através de leis de segurança nacional, a censura, excomunhões, perseguições. Chega de caça às bruxas!
Para quem acha que pensamentos como esses passam apenas pela cabeça de alguns usuários de maconha, o que não era o caso de muitos dos presentes ao debate, sugiro que vá até o site da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia e veja quem são os integrantes desta comissão, e o que defendem. Esse não é o único colegiado, de pessoas respeitáveis do Brasil, que luta pela mudança dessa lei que só favorece o crime, seja ele vestido de terno ou de fuzil na mão.
Infelizmente neste país o contraponto é a política do Rambo. Não é por menos que um relatório sobre direitos humanos apontou esta semana a polícia do Brasil como a que mais mata em confrontos, em especial a do Rio de Janeiro. Não é só no futebol que damos de goleada no mundo. Se somarmos a esse número as mortes de inocentes, de policiais, das vítimas do uso de drogas ilegais e do abuso do álcool, aí ninguém segura o Brasil.
A informação e o saber serão sempre contrapontos à ignorância e a falta de democracia.
Parabéns ao Globo e ao Viva Rio por cumprirem sua função social de lutar pela vida e em defesa da população.
Luiz Fernando Prôa
Escritor, poeta e produtor cultural








