Posso ser cansativo com relação à guerra contra as drogas: 30 anos escrevendo sobre o maldito tema. Porém, menos do que este país está sangrando e se corrompendo ao conduzir uma luta fútil contra um “flagelo da humanidade” que se alimenta da mesma essência de oferta e procura capitalista.
A cota esmagadora de sacrifício que a Colômbia pagou e continua pagando nesta guerra decretada pelo Norte é algo que não podemos esquecer. E a questão não pode ser evitada porque a cada dia ela vem ao nosso encontro. Dois eventos nesta semana ilustram bem como a questão das drogas salta por todos os lados.
Na Colômbia, o Senado votou finalmente uma reforma constitucional que proíbe – ainda que não chegue a penalizar – o porte e o consumo da célebre dose mínima. E nos Estados Unidos, a Câmara de Representantes aprovou um projeto que obriga a revisar – por ineficaz e fracassada – a estratégia anti-narcóticos que Washington lidera no Hemisfério Ocidental. Apenas uma das muitas faces contraditórias desta guerra falida.
No país que a inspira, e que gastou bilhões de dólares para reprimir a oferta e demanda de drogas ilícitas, Governo e Congresso agora buscam um “novo enfoque”, mais orientado à prevenção e ao tratamento que ao penal ou repressivo. E, no país que mais arcou com custos humanos e sociais por estar na vanguarda dessa guerra, o Governo promove uma lei que enfatiza o aspecto proibicionista e repressivo que o resto do mundo está abandonando.
Esta semana, foi aprovada a reforma constitucional mais inócua e paliativa da história recente da Colômbia. Porque a nova lei sobre dose mínima – que o Governo converteu em “questão de honra” – não mudará absolutamente nada. Será uma simples ode à bandeira e uma homenagem à teimosia do presidente Uribe, que, deve-se admitir, sabe levar adiante suas obsessões.
Como bem disse o historiador Jorge Orlando Melo, “como não se pode capturar os vendedores, a Polícia e a Justiça, já sobrecarregadas e incapazes de atender aos delitos graves, vão se dedicar a buscar infratores e levá-los aos médicos para que decidam se são viciados ou consumidores recreativos”.
Inacreditável, mas verdade. Para não falar da imortal frase do ministro Valencia Cossio, segundo a qual esta lei constitui “um passo histórico na luta contra o narcotráfico e o consumo de droga”.
Histórica poderia ser a revisão que os Estados Unidos anunciam de sua estratégia anti-narcóticos, pressionados por seus enormes custos em tempos de crise, por falta de resultados e por fatos como o de 40% da sua população já ter experimentado maconha, hoje legalizada para fins medicinais em 14 estados. Tampouco deixa de ser significativo que, como recordaram Rafael Pardo e Juan Tokatlián, os últimos três presidentes dos Estados Unidos (Clinton, Bush e Obama) consumiram “substâncias psicoativas ilícitas” em algum momento de suas vidas, e que o tema da legalização seja debatido de forma cada vez mais aberta.
Falta ver se a revisão americana vai se limitar às suas políticas domésticas ou se estenderá a estas latitudes, onde a erradicação, a criminalização, a militarização e a extradição tão pouco atingiram o narcotráfico. Não seria nada incomum se os Estados Unidos aplicassem uma política dupla: fora, punho de ferro, e dentro, luva de seda.
É a percepção que existe no México, país que hoje está pagando o mais terrível custo na guerra contra as drogas. São mais de 14 mil mortos nos três anos desde que o presidente Calderón, incitado pelos EUA, decretou sua ofensiva militar contra os cartéis. Uma matança que não se via desde a Revolução Mexicana e que lembra as piores épocas de nossa “narcoviolência”.
Para muitos mexicanos, é não apenas irônico, como inaceitável que, enquanto os EUA tratam as drogas cada vez mais como um problema social e médico, do outro lado de sua fronteira, fomentem a guerra até a morte contra as mesmas. “Saúde para os americanos, guerra para os mexicanos”, é a amarga infâmia.
Nós, colombianos, que tanto conhecemos e sofremos com esses conflitos, devemos monitorar como os EUA reformulam suas políticas antidroga e estar atentos à tragédia mexicana, duas faces de uma mesma realidade que nos afeta diretamente. O que não podemos é crer que esta semana demos um “passo histórico” para superá-la.
*Enrique Santos Calderón é diretor do Jornal El Tiempo








